sábado, 7 de abril de 2012

TRÊS PONTOS E UMA COSTELA*

1.

Lavar as roupas brancas, comprar um novo micro-ondas, pagar as faturas vencidas, contratar
Uma nova faxineira, terminar o projeto do trabalho, buscar o carro no mecânico, lixar
As paredes, começar um curso de pós, trocar os canos da pia, limpar o armário, pintar
As paredes do quarto, ir às reuniões de pais, pregar as prateleiras, comprar
Roupas novas, malhar os glúteos, hidratar os cabelos, declarar
O Imposto de Renda, depilar o pelos, ligar
Para o dentista, trocar
A resistência

E empacotar os sutiãs velhos.

2.

Naquela manhã
Gastou uma hora no banho
Reforçou a curva dos cílios.

Deixou uma parte do peito à mostra
Amarrou um laço no trinco
E saiu.

Abriu o guarda-chuva
(era como abrir um bilhete premiado)


Olhava as ruas
Sem atravessá-las.
(as duas calçadas eram suas).

Riu da sua imagem no vidro da loja.
entrou, comprou dois óleos e uma lingerie

Jogou farelo de pão no jardim
(queria dar de comer aos pássaros).

 Desde a noite passada
Sentia-se prenhe.


3.
Mas há os dias de acetona
(Nas unhas,
Na pele,
Nos olhos).

Do cabelo desmanchado,
Pernas cruzadas
(Elas e as cortinas fechadas)

De quebrar a porcelana, e deixar o pó
Consumir a casa

Há os dias em que a boca
(saciada)
Arranca sangue dos seios
(dias de calar o ventre)

Ponto em cruz
E linhas inacabadas
Para uma costela feita de carne.

______________________
*Poema anteriormente publicado no Jornalirismo.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Entre Peles

Despeja em mim as palavras
Quando falo para dentro
E quando calo para fora
Resgata-me as rodas de
Signos gira-mundo gigantes

Como o mar
a cada segundo
: expelir o cerne
E absorver o mundo
Expelir o cerne
E absorver o mundo
Expelir o cerne

e

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Cúpula do Terror

Em cada fila
De ônibus
Os aparelhos de mp3, e celulares
Com fones de ouvidos
Contam e cantam segredos

As televisões gritam bombas
Enquanto os sofás se estendem
(preguiçosos)
Nos cantos das salas.

Os jornais espirram vírus
(e doenças)
E com suas tintas
Tatuam nos dedos e peles
[tatuam revólveres e presídios,
Foices que se esgoelam por latifúndios].

Os noticiários estapeiam cada figura
Cada figa de ponta cabeça
Que as portas barram
Para o lado de fora

empanturrado,
o tempo palita os dentes
depois da carnificina maquiada.

domingo, 27 de novembro de 2011

Vira-Face

O lirismo foi expulso
do poema
da cidade
com suas veias de concreto, água e excrementos

Alguma coisa escapou dos gabinetes
dos palácios e fronteiras
e ao cair da noite
(e das bolsas)
é destaque nos jornais das 00:00 hrs.

Escapou pela fibra óptica
uma soma de cordas
um coral
que canta em disparada percussão

Alguma coisa escapou
da coroa
                               O canto entornou
                               e entoa:
                               “God, save the
People! Save us! Save the people!”

A passarada foi expulsa dos morros
                : quadro estampado na janela deste prédio
                de condomínio
                com sistema de segurança
(câmeras e cerca elétrica)

De dentro deste forte
se vê: quartos sobre quartos
(onde se amontoam (ex)pulsos)
e roupas hasteadas, esvoaçantes.

Abre-se a janela para ouvir o que evocam,
e alguma coisa sussurra
que esta cidade nunca fecha
e, para dilatar as veias (que pulsam)
descer e comprar uma aspirina
na drogaria 24 horas
(às 02:40 a. m.)

Uma lágrima
foi expulsa destes olhos
(que ao verem um made in China vagar pela noite)
lembraram dos teus
com aqueles dragões acesos em cada
(famintos por fazerem o tempo
da nossa geração)

Ah! Esses dragões!
são como um rasgo rosáceo
no azul do meu céu monótono.

Alguma coisa escapou do tempo
e eclodiu elevador acima
(uma vontade de unir dedos, mãos e espadas)

mas agora é tarde
amanhã ainda é quinta
a aspirina, efervescente
e alguma coisa
escapou desta mão
pensa.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

***

BINGO NO PARTIDO CONSERVADOR:
DA CINQUINA, UM JOGO DE TOALHAS
DA CARTELA CHEIA, UMA PISTOLA GLOCK 45.


(poema feito a partir de uma notícia de jornal)

domingo, 14 de agosto de 2011

Poema sem título (um secreto tormento?)

I

Deitar a vista no horizonte retangular
e ver lugar pra pendurar as roupas
na tua casa de ossos e sangue.
Esquecer o bairro onde nasci
sentar no bar do centro
da cidade
onde os amigos
são nossos, e a conta simples:
você, eu, eles: cenas de única peça.
e o copo cheio
de metáforas pulsantes.

II


Beber de um gole só
e quebrar o copo
Depois, pegar um taxi e
pelo retrovisor,
despedir dos personagens (que
acenam sem encenação)
e voltar e defrontar-se
com o próprio lar:
um prédio inteiro
(cortiço corpo urbano)
com espaços para novas famílias.

E pendurar a placa
na entrada/saída ocular:
"Aluga-se quartos".

sábado, 23 de julho de 2011

O TEMPO QUE ESPERE

Para Fernanda de Aragão

O TEMPO QUE ESPERE
E pare
Em algum estacionamento
Com serviço de manobrista 24 horas

Não descascarei como as tintas
Dos prédios
Desta rua Jurubatuba
                Nem vomitarei em óleo queimado
O hálito
                Das avenidas (e dias):
                               = os meus atalhos

Não trafegarei para os becos escuros
                Do esquecimento
Nem acolherei os malabaristas dos faróis
Sob o ideal pichado nos outdoors
[de fazer girar (a economia; a cidade; os ponteiros)]

O tempo que espere
Na poltrona
No pátio
Ou no raio que o parta
Que eu só permitirei este encontro
                (de espasmos e cabelos brancos)
Em alguma ressaca
Domingueira.